Conheces tanto de mim e, na verdade, nunca me tocaste

Publicado por Angela Caboz · Categoria Literatura · 12/09/2017 22:22 · 4 Visualizações

Conheces tanto de mim e, na verdade, nunca me tocaste. Nunca os nossos corpos ficaram frente a frente, nus, sem tempo para medos ou inibições. Nunca dividimos intimidades. Mesmo assim, tu sabes tão bem quem sou. Conheces cada detalhe da minha alma. Sentes cada batida mais acelerada do meu coração. Ouves cada uma das minhas gargalhadas e sentes o sabor amargo de todas as lágrimas que solto.

Tu conheces as dores do meu passado. Conheces as feridas que o tempo foi deixando em mim. Já percebeste quais são os medos que me perseguem no presente. Sonhas comigo todos os meus sonhos com cheiro a futuro. Entendes as tempestades que me atacam. Desvias os vendavais que me querem derrubar. Ajudas-me a serenar tantas dessas tempestades, sem saíres daí, do teu mundo que eu nem sequer conheço.

Tu sabes qual é rota das minhas ilusões. Os caminhos que desenho, julgando que, por ali, posso chegar ao futuro. És um aliado da minha coragem, aquela que dizem que é verde, a cor dos meus olhos que nunca vistes. Vestes o mesmo fato que eu visto para caminhar nesta estrada, assegurando-me desta maneira que jamais me deixarás desistir de mim.

Conheces tanto de mim, que, por vezes, me despes a alma. Deixas que o meu coração fique solto, que não tenha medo de te confessar segredos que me pertencem. Os segredos que jamais pensei dividir com quem quer que fosse. Entrego-me a ti. Deixas que nos encontremos, sem nos encontrarmos. A nossa distância é meramente física. Em tudo o resto, tu estás sempre presente. Tu és parte da minha vida. Uma parte muito importante e decisiva.

Quem diz que um abraço só pode ser dado quando dois peitos ficam encostados, ou mesmo colados, não sabe a intensidade de sentir o outro à distância. Quem diz que abraço é quando dois braços nos envolvem e nos aproximam de quem está ali à nossa frente não conhece o calor de um abraço de alma. De um abraço que nos toca por dentro. Um abraço que junta cada pedaço de nós, que andava por aí, solto num corpo que se sentia perdido e sem sentimentos. Quem não conhece um abraço destes não sabe verdadeiramente o significado de escutar o coração do outro, sem lhe olhar o rosto. Não sabe o significado de se sentir amado, sem que lhe tenham tocado o corpo. Não sabe a emoção de lhe sentirem a alegria e a tristeza, sem que os seus olhos se cruzem. É essa a verdadeira magia de um amor a prova de que nem sempre precisamos de intimidade para sentir a intensidade de tudo o que sentimos.

E é tão forte este sentimento que nos une. Tu tocaste a minha alma e o meu coração ao mesmo tempo. Soubeste de imediato despir quem eu sou, para me fazeres conhecer ainda melhor. Retiraste-me cada uma das peças de roupa já velhas e desgastadas que o meu corpo teimava em continuar a vestir. Rasgaste-me esse vestido desbotado e demasiado usado que a minha tristeza vestia há anos. O vestido que me impedia de continuar a sorrir. Descalçaste-me as botas rotas e pesadas, cheias de pedras do passado, que não me deixavam ter sonhos com asas, apenas me obrigavam a ter pesadelos com tempos já distantes, onde se encontravam as cicatrizes das minhas feridas.

Tu chegaste e deseixaste-me nua, vestida com o véu feito com as rendas do teu carinho. O véu que foi abrindo caminho para tudo o que sou pudesse regressar, sem medo do fantasma do tempo que sempre me tinha perseguido. Tu conheces-me e nunca os nossos corpos se amaram. Tu amas-me e nunca o brilho do teu olhar iluminou a minha face, que vivia sombria e sem luz.

Eu apaixonei-me no dia em te encontrei a cuidar da minha alma, como se ela fosse um complemento da tua. Tu batalhaste contra os nossos fantasmas. Derrubaste a minha insegurança e conquistaste a minha coragem. Redesenhaste quem eu era e eu gosto tanto desta nova escultura que tu fizeste com tudo o que eu sou. Adoptei-te de imediato, como sendo o único sentido possível para a minha vida. Trouxeste-me de volta ao mundo, derrubando a muralha que se erguia entre mim e ele. Não tive vergonha que me visses nua. Não tinha receio do teu julgamento. Não te pedia juramentos. Não esperei por promessas.

Deixei-te ficar comigo, sem dúvidas e não precisei de explicações. Tu eras tudo o que eu nunca pensei que precisava. O amor que me veio mudar.

Nunca nos tocamos, nunca nos beijamos. Mas já nos abraçámos emocionalmente tantas vezes. Imagina como será no dia em que a vida nos permitir um encontro físico. Os nossos mundos farão uma tempestade de emoções. Haverá uma chuvada de desejos. E nada disso nos irá assustar, porque nos conhecemos tão bem que nada nos poderá separar.

Amei-te ainda antes de te amar. Amei-te com o desejo de um dia te tocar. Tu tocaste-me a alma com a magia do amor. Que mais eu posso querer agora, que não seja pedir à vida, para me deixar abraçar-te e dizer-te tudo o que os nossos silêncios já disseram?


@angela caboz

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